A normalização da crise climática
O aquecimento global está deixando de ser visto como uma ameaça para ser cada vez mais bem-vindo por atores políticos e econômicos. E esse é um fenômeno ainda mais perigoso que o negacionismo.

Por trás do recente interesse dos Estados Unidos na Groelândia e no Canadá estão dois elementos estratégicos cruciais para sobrevivência do país no jogo geopolítico do século 21: recursos naturais e o controle do Mar do Ártico. Dois fatores que, apesar do discurso negacionista do presidente Trump, dependem do degelo do Polo Norte causado pelas mudanças climáticas. Mas para além da Casa Branca, a aposta no degelo do permafrost indica um câmbio na linguagem em torno do aquecimento global. Mudanças climáticas estão sendo normalizadas e, em vez de ameaça, o poder econômico começa a ver a crise ambiental com bons olhos.
O olhar sobre as oportunidades políticas e de negócio no Ártico vem aumentando ao longo das últimas décadas. Os efeitos das mudanças climáticas na navegabilidade do Ártico são bem estudados e o assunto é figurinha carimbada nos relatórios de defesa dos EUA e de outros países. Mas esse costumava ser o pior dos cenários, factível apenas se os países centrais não cumprissem os acordos de Paris. Ainda que com poucas ações efetivas, o objetivo oficial era frear o aquecimento global em 1.5ºC. Pois bem. O objetivo não foi cumprido e dificilmente será. Então, se a crise é inevitável e seus efeitos abrem novas oportunidades, por que não aproveitá-las?
Misturando com o doomerismo do 1% com uma versão necropolítica do meme "this is fine”, mudanças climáticas deixam de ser uma ameaça a ser combatida ou negada e passam a ser compreendidas como algo positivo para o mercado. O mundo queima, mas a economia não pode parar. Aproveitar o “novo normal” do caos ambiental seria a única decisão racional. Lógica. E trágica.
Aliás, já havia sinais de mudança apontando para essa normalização e como instituições estavam capitalizando e financeirizando o caos ambiental. Por exemplo, quando surgiram vários apps para especulação imobiliária de territórios em risco, ou quando cidades começaram a se promover como “refúgios climáticos”, ou quando passaram a mensurar o impacto financeiro da crise. Mas agora, a exploração industrial dos recursos surgindo debaixo do permafrost, investimentos em megaprojetos de geoengenharia, adaptação e resiliência climática, são vistos como "negócios do futuro".
Assim, a normalização da crise climática é muito mais ameaçadora do que o negacionismo, uma vez que a crise deixa de ser uma consequência indesejada e passa o fator habilitador. Explorar o derretimento do permafrost da Groelândia e o degelo do Ártico dependem do aumento do nível do mar, da liberação de enormes quantidades de metano na atmosfera, da acidificação dos oceanos e de uma dramática inversão das correntes marítimas no Atlântico Norte. O capitalismo do desastre definitivo.
Ao longo da próxima década, será tentador criar negócios para o caos climático normalizado. Muitos deles serão extremamente bem-intencionados e até fundamentais, em particular aqueles focados em adaptação de comunidades vulneráveis. Mas é imperativo inovar para criar novos sistemas econômicos, negócios regenerativos e políticas públicas para um mundo que estará longe de ser normal.
::: SINAIS DE MUDANÇA :::
Sinais de mudança são inovações pequenas, na geografia e na escala, que desafiam premissas sobre o presente e apontam novas possibilidades para os futuros. Ao ler esta selação, pergunte-se: como o mundo será diferente caso esses fenômenos forem comuns em dez anos ou mais?
França banirá plataformas norte-americanas do serviço público
A França não irá mais permitir que funcionários públicos utilizem plataformas de empresas fundadas nos Estados Unidos, como Zoom, Teams e Google Meet. Em substituição, o país passará a adotar o Viso, uma plataforma desenvolvida Autoridade Digital Interministerial francesa. A medida tem como objetivo reforçar a soberania digital da França e aponta tanto para a emergente dissociação econômica, política e tecnológica dos Estados Unidos. Além da desdolarização, parte do mundo pode também passar por um processo ruptura com o Vale do Silício.
Fernando de Noronha adotará o sistema de Felicidade Nacional Bruta do Butão
A ilha de Fernando de Noronha (PE) irá implementar o sistema de Felicidade Nacional Bruta (Gross National Happiness, GNH) do Butão. Essa é a primeira vez que o sistema de medição subjetiva de progresso do reino asiático é usado por outro país. Países como o Butão, Nova Zelândia, Austrália e Inglaterra têm testado métricas alternativas para definir riqueza, desenvolvimento e progresso em substituição ao produto interno bruto (PIB).
Normal‽ é a coluna semanal de futuros de Jacques Barcia, futurista com mais de uma década de experiência ajudando organizações de todos os tipos a identificar mudanças emergentes, entender novos paradigmas e criar novos produtos, políticas públicas e estratégias. Jacques é responsável pela consultoria Futuring Today, é pesquisador afiliado do Institute for the Future (IFTF), e é professor de foresight estratégico na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).




